Prefácio

 

Eu só queria que as pessoas parassem de me dizer que tudo vai ficar bem. Tenho uma novidade para vocês: nada vai ficar bem!

E como eu sei disso?

Bem, você simplesmente sabe que algo está muito errado quando um episódio de Friends te faz chorar. Especificamente, o episódio em que a Rachel faz 30 anos. Coitada da Rachel, eu entendo o drama dela. Entendo mesmo!

Meu aniversário de 30 anos estava perigosamente perto.

Minha mãe não para de dizer que eu não devo me preocupar, que eu sou muito nova e que, com certeza, se as coisas não derem certo com o Pedro eu vou achar outro rapaz encantador. Porque é isso que o Pedro é para ela: Um rapaz encantador.

O fato é que: eu não tenho um Ross. Não tenho para onde correr. Pensando bem, talvez o Pedro seja o meu Ross. Todo mundo sabe que a Rachel e o Ross tiveram várias crises. No final, talvez fique tudo bem. Tudo TEM que ficar bem. Afinal, eu sou uma boa pessoa. Deus não faria isso com uma boa pessoa!

O que mais me incomoda é que, a essa altura da vida, eu já deveria ser uma pessoa realizada. Uma pessoa plena, sabe? Talvez até com filhos.

Será que eu devo congelar meus óvulos? Jogando no Google.

Não dá, é muito caro. Meu Deus, EU NUNCA VOU SER MÃE!

Começo a chorar copiosamente. Acredito que nunca chorei assim antes.

Há uma semana, eu nunca imaginaria que isso fosse acontecer. Não mesmo! Eu era uma mulher quase noiva feliz e despreocupada. Tudo estava totalmente planejado. Agora eu sou um nada! E tudo por culpa de uma maldita pipoca!

...

Capítulo 1

Rachel, Pipocas e o Tempo

Ele terminou comigo por culpa de um saco de pipocas! Eu tentei argumentar, se você está há 10 anos de dieta, é simplesmente impossível dividir um saco de pipocas com qualquer pessoa. Mesmo que você realmente ame aquela pessoa e ele, no caso, seja seu quase noivo. É sério, não dá! Cientificamente.

Caramba, eu tinha economizado calorias a semana toda para comer aquelas pipocas. Sabe o que isso significa?

É tão difícil de entender?

Eu não sou uma pessoa gulosa. Minha única vontade é comer a porcaria do saco inteiro de pipocas. Ele tem a medida exata para substituir meu jantar! Eu mereci isso!

— Esse não é o ponto, Isadora! — ele tentou explicar, um pouco alto demais.  — Nós não compartilhamos nada, nunca!

Segurei sua mão com força, como quem diz: cala a boca! Olhei em volta e me afundei um pouco na cadeira, tentando me esconder dos olhares curiosos.

— Amor, eu te perguntei se você queria que eu comprasse outra pipoca. — argumentei baixinho, mas incisivamente.

— Você está perdendo o ponto novamente! Caramba! Se você não pode dividir uma pipoca idiota, como pode supor que nós conseguiremos dividir uma vida juntos? Me responde uma coisa, há quanto tempo você mora sozinha?

— O que?

O que isso tinha a ver com o fato de ele não ter comprado o próprio saco de pipocas?

— Há quanto tempo, Isadora? — ele praticamente gritou. As pessoas no cinema começaram a prestar atenção em nós. Por sorte, o filme ainda não tinha começado. Olhei em volta novamente, totalmente sem graça, tentando contar mentalmente quantas pessoas estavam assistindo aquela cena ridícula. Dezesseis.

— Hum, sei lá. Dois anos?

— E nesse tempo todo, quando foi que você me ofereceu sequer uma gaveta? Ou então organizou um jantar para os meus amigos? Ou sei lá, dividiu sua escova de dentes comigo?

— Pedro! — exclamei revoltada. — Que nojo! Isso não é higiênico. Pelo amor de Deus!

— Preocupação com higiene é coisa de gente velha, Isadora! Nós deveríamos ser jovens apaixonados. A última coisa que você deveria pensar é nos germes que estão na minha boca!

Eu deveria ter percebido que aquilo não estava indo bem quando as orelhas dele começaram a ficar vermelhas.

— Você simplesmente não pensa em mim. — ele passou as mãos nos cabelos loiros. — Quantas vezes eu já te falei que gostaria que você deixasse o seu cabelo crescer? Você não leva em consideração a minha opinião para nada.

Peraí, o quê?

— Você disse que eu ficava bonita de qualquer jeito! — acusei, apontando o dedo para ele, revoltada.

Ele começou a levantar da cadeira. O Pedro não ia me deixar plantada ali, ia?

— Eu menti, pelo bem da nossa relação. Coisa que você é incapaz de fazer. Você deixou isso bem claro na semana passada quando falou sobre os meus shorts de corrida.

— Mas Pedro, aqueles shorts são bizarros. Alguém tinha que te dizer isso.

Ele balançou a cabeça, parecendo cansado.

— Para mim deu, Isadora! Acabou!

Então, o Pedro virou de costas e foi embora, antes do filme começar. E nem sequer me ofereceu uma carona.

Bom, se você quer saber, ele perdeu um ótimo filme. Eu e a senhora do meu lado aproveitamos muito. E ela disse que meu cabelo está ótimo. Vou ignorar o fato de que o cabelo dela era roxo. E de qualquer forma, cabelo colorido está na moda. Ela com certeza sabia do que estava falando.

Eu não me conformei com essa história do Pedro querer terminar, claro! Então, eu o bombardeei com mensagens de texto. Eis aqui uma lista de todas elas:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

E foi isso. Estou oficialmente dando um tempo. Mas a questão é: como é que se dá um tempo?

Fiz o que qualquer pessoa faria nessa situação, recorri ao Google.

É, eu sei, fizemos tudo errado! Em todo lugar fala que precisamos estabelecer regras. Nós não estabelecemos nenhuma regra. Também falam que é preciso combinar qual vai ser o tempo do tempo. Não fizemos isso.

Um site está dizendo que pode ser um momento de autoconhecimento e que esse tempo pode ajudar na evolução do casal. Não sei se acredito. Se você for pensar bem, um site que faz propaganda de “uma semente que faz você emagrecer 10kg em um mês”, não pode ser confiável.

Se bem que todo cientista diz que a natureza ainda esconde muitos mistérios, né? Quem sabe descobriram mesmo essa tal semente. Cliquei, só para ver o que era…

Pornô com vírus.

Tentei fechar a janela rapidamente, mas mil outras janelas começaram a abrir instantaneamente. Todas de conteúdo que são, no mínimo, indecentes. Em pânico, apertei o botão de desligar do notebook com força.

Que raiva! Agora não tenho nem computador. Não tenho namorado e não tenho computador. E, talvez, nunca terei filhos. A menos que eu ganhe na loteria ou receba alguma herança de um parente distante.

Resolvi mandar uma mensagem para minha mãe.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Eu já deveria saber, não sei porque tentei.  Minha mãe tem déficit de atenção quando se trata de tecnologia.

Meu celular começou a tocar. Era ela.

— Mãe, eu estou bem. Falei que não precisava me ligar.

— Não seja ingrata, Isadora.

Revirei os olhos para o telefone, mesmo sabendo que ela não estava me vendo.

— Você está bem mesmo? — ela perguntou. — O Pedro te ligou?

— Não! Ele não ligou.

— Mas ele vai ligar. Fica tranquila, filha. Quer que a mamãe vá até aí ficar com você?

— Não, mãe. Obrigada.

— Você vem almoçar amanhã?

— Não estou com vontade de sair, desculpe.

— Mas a vovó vem amanhã, Dora!

Minha mãe estava indignada.

— Fala para vovó que eu vou vê-la outro dia. E aproveita e pergunta para ela do parente rico.

— Qual parente rico?

— Aaaiiii, deixa para lá.

Então, ela surtou!

— Isadora, pode parar! Eu não estou gostando nada da sua atitude! Só porque o Pedro pediu um tempo, você não quer mais sair de casa. Se entrar em depressão por causa disso, você vai ver só! Eu não vou permitir, ISADORA! Eu não vou!

— Para, mãe! Eu não vou ficar deprimida.

Eu já estava deprimida!

— Acho bom! Então você vem amanhã?

— Não!

— Sua vó vai te matar!

— Ai, mãe! Já me arrependi de te mandar mensagem. Você não está respeitando o meu momento! Vou desligar, a gente se fala depois.

Desliguei o telefone antes que ela pudesse falar mais alguma coisa. Minha mãe, às vezes, é totalmente insensível.

Levantei do sofá, melancólica. Fui até a cozinha e abri a geladeira. Caramba, um momento de alegria nesse dia horroroso! Tem sorvete! Tinha até esquecido ele aqui dentro. Sorvete não estraga, né?  Peguei a minha colher de cabo azul favorita e volto para o sofá, esperando que o próximo episódio de Friends me faça rir um pouco. Abri o pote com expectativa.

Nãooo!

Era feijão.

Feijão congelado.

Quando foi que eu congelei feijão?

Quando foi que eu cozinhei feijão?

É isso. Vou dormir.